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Adolescência ‘em construção’

Por Alda Marmo | Publicado em 24/04/2018 | Categorias: Uncategorized

 

Para muitos pais a entrada dos filhos na adolescência é motivo para deixar os cabelos em pé. Confesso que eu também senti insegurança quando meus filhos passaram a fazer algumas escolhas e a ter alguma autonomia. Me lembro que era mês de janeiro e estávamos na praia, eu eles e alguns amigos. Nesse verão, eles tinham entre 13 e 14 anos respectivamente e pela primeira vez eu fazia o caminho entre a casa e a praia sozinha. Os meninos continuavam dormindo, só chegavam depois de umas 2 ou 3 horas, me davam um “oi” e nem esquentavam a cadeira, saiam andando atrás da galera deles. E assim era também com a hora do almoço e do jantar. Nossos horários, atividades e interesses não eram mais os mesmos. Eles tinham a vontade deles e entre jogar stop ou pular ondas comigo e estar com os amigos, os amigos ganhavam disparadamente. Nada mais natural do que isso. Sentir o gosto de um pouco de liberdade, chegar de madrugada em casa, poder ir e vir quando o desejo mandar realmente é bastante sedutor. Claro que a liberdade não é assim uma Brastemp logo de cara, eles ganham algumas horas a mais e alguma distância de casa, mas mesmo que seja só um pouquinho ela já era boa. Nesse meio tempo, sobravam eu, minha bolsa de praia, minha cerveja quente, algum livro da vez, saudade e o pensamento obsessivo sobre segurança, drogas e álcool.  Sempre procurei ser uma mãe parceira, amiga, mas mãe. Nunca fui a louca da regra, mas elas haviam. Por mais bacana e compreensiva que busquei ser, sabia que existiriam alguns segredos, sabia que eu não saberia, na hora, de todas as experiências dos meus filhos. Sabia que eles estariam perto ou em contato com drogas e álcool e por ventura em alguma situação que não fosse completamente segura, até porque essa segurança toda não existe em lugar nenhum. Sabia também que vivemos em tempos e épocas diferentes, que nossas adolescências não podiam ser comparadas. São histórias novas, outra moda, outra tecnologia, outro tudo.

A única coisa que parece sempre permanecer é a preocupação dos pais. Depois do beijo de tchau e de algumas recomendações eles estão por conta própria. E é aqui que a coisa pega!

Quem é aquele cara que está saindo pela porta da nossa casa e indo para o mundo?

Tirando as roupas, o corte do cabelo, o aparelho nos dentes, a barriga cheia, as viagens, a mesada, as aulas de inglês, de esporte, o que mais você ofereceu para o seu filho?

Todos os pais querem dar o melhor que podem para os filhos. Mas na hora que a porta de casa fecha, além da indumentária, o que faz mesmo a diferença é o que o dinheiro nunca comprou.

Tive clientes economicamente bastante favorecidos e emocionalmente bastante carentes. Tive clientes filhos de grandes empresários que morriam de saudade dos pais. Tive clientes filhas de mães super competentes que não tinham a mínima ideia de quem eram suas filhas. Tive clientes filhos de famílias super regradas que não faziam a menor ideia do que seus filhos faziam quando saiam de casa.

Realmente não existe fórmula para criar filhos, muitas vezes mesmo fazendo da melhor forma ainda pode dar errado. No entanto, existem muitas maneiras de aumentar a chance do acerto. Acerto aqui, não quer dizer que o filho faça exatamente o que planejamos, isso é outra coisa, aumentar a chance de dar certo, quer dizer que como desenvolvedores de pessoas para o mundo, nós pais temos e podemos fazer muitas coisas para que o resultado seja bom.

Semana passada falei sobre limites, hoje vou falar sobre ‘autoconhecimento’.

Autoconhecimento não é papo de psicólogo para vender curso ou livro, autoconhecimento é uma ferramenta. Autoconhecimento a gente ensina!

Conhecer-se não é tarefa fácil, na adolescência pior ainda, pois o adolescente é como aqueles sites que a gente clica e aparece “em construção”. Eles estão construindo sua personalidade, seus gostos, seus interesses e isso acontece quando a porta de casa fecha e a do mundo se abre. Claro que até a adolescência muita coisa está estabelecida, mas as novas experiências vão ter parte importante na formação deles. Muitas coisas vão ficar confusas, muitas regras vão cair, muito questionamento vai se dar dentro da cabeça deles. Entre o “sou e o vou me tornar” existe um longo caminho e os pais podem sim ajudar nesta jornada do “re-conhecimento”.

Como?

O ser humano nunca foi e nunca será autossuficiente é dependente dos outros seres humanos, estamos amarrados para sempre uns aos outros, especialmente para saber quem somos. Autoconhecimento se faz acompanhado!

“Por que me fitas com olhos que não me veem?” pergunta Shakespeare em MacBeth. Já eu, pergunto: Você sabe ouvir as pessoas para vê-las melhor?

Nós olhamos, mas não conseguimos ver bem quem está na nossa frente porque não sabemos ouvir. Com os olhos vemos o que está fora, mas é com os ouvidos que ‘vemos’ o que está dentro.

Quem não sabe ouvir, não conhece bem ninguém. Aprendi que o essencial para se conhecer realmente o outro e com isso produzir autoconhecimento é saber escutar. Uma habilidade cada vez mais rara entre pais e filhos.

Parece que com os filhos só damos ouvidos para o que queremos ou gostaríamos de ouvir. Faça perguntas sobre ele, sobre seus gostos, suas escolhas, sobre seus sentimentos. São essas perguntas que farão com que ele faça o exercício do autoconhecimento, diante das perguntas ele irá em busca das respostas. Nesses momentos/conversas é importante dar espaço para a escuta sem julgamentos. Lembre-se eles estão ‘em construção’.

Os seus interesses, nem sempre estão alinhados com as nossas expectativas, julgamos seus gostos comparando-os aos nossos, afinal era tão diferente na sua época, não é? Como comparar um Renato Russo com Mc Kevinho (com todo respeito).

A partir do momento que ouvir e julgar aparecem acompanhados, estamos fechando uma porta ao invés de abrir. O julgamento encerra a conversa, a escuta abre. Não gostou do que ouviu?  Pergunte mais, faça analogias, conte a sua história. Seu filho joga vídeo game? Você sabe quais as habilidades dele nos jogos (que você mesmo deu ou comprou). Ele escuta funk? Você já ouviu? Não gosta, ouça mesmo assim, converse sobre o conteúdo, apresente uma outra, conheça seus argumentos, suas perguntas o ajudarão a encontrar respostas.

Se você conversar com ele, mesmo apresentando uma opinião diferente você estará ensinando ele a criar argumentos, a defender uma opinião, a respeitar a opinião de outra pessoa e assim pode criar uma conexão. Enquanto isso, ele no quarto dele, sozinho vai refletir e vai aos poucos se construindo e também se reconhecendo.

Fica aí um conselho!

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